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Redação
Publicado em 09/03/2007, às 12h08

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

Nada como alguém que vê a situação de fora para ajudar a responder questões como essas. James Cavallaro é brasilianista, professor de direito em Harvard e fundador no Brasil da ONG Justiça Global. Falando a Galileu, ele explica assim o fenômeno Chico Mendes. "A grande genialidade da causa dele estava na interseção que ele encontrou entre os direitos humanos e o movimento a favor do meio ambiente. Ele tornou essa causa célebre, por isso obteve tanto destaque internacional. Seu legado ficou mundialmente famoso porque ele lutava dentro da legalidade, sem nenhuma violência, contra a repressão, tão constante num país que na época era apenas supostamente democrático. A luta dele é muito importante até hoje, como um exemplo. Temos ainda muita violência. E o mundo em geral não avançou muito de lá para cá. Precisamos da união de forças sociais para combater ainda os mesmos problemas. E Chico Mendes era o gênio da união dessas forças."

Visto de dentro para fora, o legado do líder seringueiro põe o Brasil no centro de questões maiores da humanidade. O jornalista Leão Serva, que cobriu todo o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, enfatiza isso. "No tribunal vi muito bem aquela definição que o ex-presidente FHC dava sobre o Brasil, que é a de um país que vive perenemente a contradição entre o moderno e o arcaico. O fórum de Xapuri era o arcaico. O advogado dos réus falava aquela linguagem dos doutores de terra de ninguém. A linguagem usada pela acusação e pela imprensa era a moderna. Aquele julgamento era uma cena de filme do Glauber Rocha. Naquele momento o Brasil não estava se importando muito para as questões ambientais. Tínhamos um país abrindo os olhos para a região Norte, a partir dos gigantescos incêndios ocorridos em Roraima entre 1986 e 1989. Chico teve a sapiência de ver que o Brasil é suscetível a pressões internacionais. Fez viagens aos EUA para apregoar o corte de financiamentos para o Brasil, caso não respeitássemos a ecologia e o meio ambiente. Ganhou prêmio na ONU. Foi o primeiro líder de direitos humanos a discursar no Congresso dos EUA."

Explicações bem mais modestas para a repercussão mundial da causa do líder vêm do seu braço direito, Gomercindo Rodrigues, assessor de Chico Mendes e autor do livro "Caminhando na Floresta". "Ele tinha o dom, a capacidade única de conversar com gente diferente, de diferentes facções. Ele simplesmente conversava com todo mundo. Já no Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985, ele começou a articular algo interessante, um conceito de reservas extrativistas. Era uma idéia inteiramente nova. Isso porque, sejamos claros, os ambientalistas se limitavam a dizer que tínhamos de 'preservar a Amazônia', e o governo tinha aquele discurso segundo o qual tinha que 'desenvolver' a região, para, com isso, diminuir a pobreza e a miséria."

Além das opiniões, a própria biografia de Chico Mendes se incumbe de mostrar o porquê de sua importância. Ele saiu do anonimato com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975. Ali, passou a ocupar o cargo de secretário-geral. No ano seguinte, engajou-se nas lutas dos seringueiros para impedir desmatamentos pela técnica dos "empates". Sempre feitos no verão, os "empates" eram ações coletivas que visavam impedir ("empatar") a ação dos peões encarregados da derrubada da mata. Um grupo de 100 a 200 pessoas - homens, mulheres e crianças - ia pacificamente aos acampamentos e tentava convencer os peões a abandonar as motosserras. Os "empates" de Chico Mendes em seringais de Xapuri chegaram a gerar desapropriações e a criação de reservas extrativistas controladas por seringueiros.

O sucesso na liderança dessas ações despertou nele outros interesses. Lentamente, ele se transforma num político sagaz e de ações precisas. Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Foi o suficiente para levá-lo à vitória na eleição que deu a ele um posto de vereador na Câmara Municipal de Xapuri, pelo MDB, no ano seguinte. Neste momento, ele passa a despertar ainda mais atenção e surgem então as primeiras ameaças de morte.

Já nesse tempo, as questões de Xapuri tinham um apelo universal para o, agora, vereador. Tanto que, em 1979, ele converte a Câmara Municipal em foro de debates sobre violência agrária e questões ambientais. A parceria com o MDB termina no ano seguinte, quando surge o PT, que teve em Chico um de seus fundadores. Isso torna ainda mais radical a oposição - do governo e dos fazendeiros - às suas idéias. Em 1980, ele foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, numa armação de fazendeiros que tentavam acusá-lo da morte daquele que o precedeu como vítima de tocaia: Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia. Passado o susto, em 1981 Chico assumiu a direção do Sindicato de Xapuri. Pronto, estava dada a largada do processo que fez a sua estrela brilhar para o mundo.

Em outubro de 1985, liderou o Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, que deu à luz o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Sua insistente retórica em defesa da "união dos povos da floresta" passa a reverberar nos quatro cantos do globo. Tanto que, em 1987, ele recebe a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, onde puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causada por projetos financiados por bancos internacionais.

Sua página na internet sugere que é exatamente este o ponto que o transforma em alvo político. "Dois meses depois da visita, Chico Mendes levava essas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Trinta dias depois, os financiamentos aos projetos devastadores são suspensos, e Chico é acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o 'progresso' do Estado do Acre. Meses depois, Chico Mendes começa a receber vários prêmios e reconhecimentos, nacionais e internacionais, como uma das pessoas que mais se destacaram naquele ano em defesa da ecologia, como por exemplo o prêmio 'Global 500', oferecido pela própria ONU", diz um texto no site.

E assim chegamos a 1988, ano em que ele implantou uma das primeiras reservas extrativistas no Acre. Conseguiu também aquela que pode ser considerada a sua sentença de morte: a obtenção de uma intrépida desapropriação do seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, em Xapuri. Nesse ponto, as ameaças de morte ganharam tanta intensidade que se fez necessária a proteção policial para tentar impedir o disparo da noite de 22 de dezembro. Como ela não funcionou, logo após o tiro teve início a busca por quem teria cumprido a ameaça.

A morte do líder seringueiro chocou, mas não surpreendeu muita gente. Fora aqueles que estavam na cena do crime, duas pessoas foram as primeiras a saber do assassinato de Chico Mendes. Uma delas é o deputado federal Fernando Gabeira, amigo fraternal do seringueiro e que antevia o fim trágico. "Ele era meu amigo, muito meu amigo. Era uma pessoa boa, tranqüila e que buscava apoio. Ele vivia sempre numa situação muito difícil, sabia que era sempre ameaçado. Na véspera do assassinato dele, nós mandamos, pela 'Folha de S.Paulo', a atriz Lucélia Santos para fazer uma edição especial sobre ele", diz Gabeira.

Outro dos primeiros a receber a notícia da morte, Gomercindo lembra que "Chico estava marcado para morrer havia muito, desde 1970, quando escapou de suas primeiras emboscadas. O pioneir

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

segunda

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

Nada como alguém que vê a situação de fora para ajudar a responder questões como essas. James Cavallaro é brasilianista, professor de direito em Harvard e fundador no Brasil da ONG Justiça Global. Falando a Galileu, ele explica assim o fenômeno Chico Mendes. "A grande genialidade da causa dele estava na interseção que ele encontrou entre os direitos humanos e o movimento a favor do meio ambiente. Ele tornou essa causa célebre, por isso obteve tanto destaque internacional. Seu legado ficou mundialmente famoso porque ele lutava dentro da legalidade, sem nenhuma violência, contra a repressão, tão constante num país que na época era apenas supostamente democrático. A luta dele é muito importante até hoje, como um exemplo. Temos ainda muita violência. E o mundo em geral não avançou muito de lá para cá. Precisamos da união de forças sociais para combater ainda os mesmos problemas. E Chico Mendes era o gênio da união dessas forças."

Visto de dentro para fora, o legado do líder seringueiro põe o Brasil no centro de questões maiores da humanidade. O jornalista Leão Serva, que cobriu todo o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, enfatiza isso. "No tribunal vi muito bem aquela definição que o ex-presidente FHC dava sobre o Brasil, que é a de um país que vive perenemente a contradição entre o moderno e o arcaico. O fórum de Xapuri era o arcaico. O advogado dos réus falava aquela linguagem dos doutores de terra de ninguém. A linguagem usada pela acusação e pela imprensa era a moderna. Aquele julgamento era uma cena de filme do Glauber Rocha. Naquele momento o Brasil não estava se importando muito para as questões ambientais. Tínhamos um país abrindo os olhos para a região Norte, a partir dos gigantescos incêndios ocorridos em Roraima entre 1986 e 1989. Chico teve a sapiência de ver que o Brasil é suscetível a pressões internacionais. Fez viagens aos EUA para apregoar o corte de financiamentos para o Brasil, caso não respeitássemos a ecologia e o meio ambiente. Ganhou prêmio na ONU. Foi o primeiro líder de direitos humanos a discursar no Congresso dos EUA."

Explicações bem mais modestas para a repercussão mundial da causa do líder vêm do seu braço direito, Gomercindo Rodrigues, assessor de Chico Mendes e autor do livro "Caminhando na Floresta". "Ele tinha o dom, a capacidade única de conversar com gente diferente, de diferentes facções. Ele simplesmente conversava com todo mundo. Já no Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985, ele começou a articular algo interessante, um conceito de reservas extrativistas. Era uma idéia inteiramente nova. Isso porque, sejamos claros, os ambientalistas se limitavam a dizer que tínhamos de 'preservar a Amazônia', e o governo tinha aquele discurso segundo o qual tinha que 'desenvolver' a região, para, com isso, diminuir a pobreza e a miséria."

Além das opiniões, a própria biografia de Chico Mendes se incumbe de mostrar o porquê de sua importância. Ele saiu do anonimato com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975. Ali, passou a ocupar o cargo de secretário-geral. No ano seguinte, engajou-se nas lutas dos seringueiros para impedir desmatamentos pela técnica dos "empates". Sempre feitos no verão, os "empates" eram ações coletivas que visavam impedir ("empatar") a ação dos peões encarregados da derrubada da mata. Um grupo de 100 a 200 pessoas - homens, mulheres e crianças - ia pacificamente aos acampamentos e tentava convencer os peões a abandonar as motosserras. Os "empates" de Chico Mendes em seringais de Xapuri chegaram a gerar desapropriações e a criação de reservas extrativistas controladas por seringueiros.

O sucesso na liderança dessas ações despertou nele outros interesses. Lentamente, ele se transforma num político sagaz e de ações precisas. Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Foi o suficiente para levá-lo à vitória na eleição que deu a ele um posto de vereador na Câmara Municipal de Xapuri, pelo MDB, no ano seguinte. Neste momento, ele passa a despertar ainda mais atenção e surgem então as primeiras ameaças de morte.

Já nesse tempo, as questões de Xapuri tinham um apelo universal para o, agora, vereador. Tanto que, em 1979, ele converte a Câmara Municipal em foro de debates sobre violência agrária e questões ambientais. A parceria com o MDB termina no ano seguinte, quando surge o PT, que teve em Chico um de seus fundadores. Isso torna ainda mais radical a oposição - do governo e dos fazendeiros - às suas idéias. Em 1980, ele foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, numa armação de fazendeiros que tentavam acusá-lo da morte daquele que o precedeu como vítima de tocaia: Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia. Passado o susto, em 1981 Chico assumiu a direção do Sindicato de Xapuri. Pronto, estava dada a largada do processo que fez a sua estrela brilhar para o mundo.

Em outubro de 1985, liderou o Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, que deu à luz o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Sua insistente retórica em defesa da "união dos povos da floresta" passa a reverberar nos quatro cantos do globo. Tanto que, em 1987, ele recebe a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, onde puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causada por projetos financiados por bancos internacionais.

Sua página na internet sugere que é exatamente este o ponto que o transforma em alvo político. "Dois meses depois da visita, Chico Mendes levava essas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Trinta dias depois, os financiamentos aos projetos devastadores são suspensos, e Chico é acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o 'progresso' do Estado do Acre. Meses depois, Chico Mendes começa a receber vários prêmios e reconhecimentos, nacionais e internacionais, como uma das pessoas que mais se destacaram naquele ano em defesa da ecologia, como por exemplo o prêmio 'Global 500', oferecido pela própria ONU", diz um texto no site.

E assim chegamos a 1988, ano em que ele implantou uma das primeiras reservas extrativistas no Acre. Conseguiu também aquela que pode ser considerada a sua sentença de morte: a obtenção de uma intrépida desapropriação do seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, em Xapuri. Nesse ponto, as ameaças de morte ganharam tanta intensidade que se fez necessária a proteção policial para tentar impedir o disparo da noite de 22 de dezembro. Como ela não funcionou, logo após o tiro teve início a busca por quem teria cumprido a ameaça.

A morte do líder seringueiro chocou, mas não surpreendeu muita gente. Fora aqueles que estavam na cena do crime, duas pessoas foram as primeiras a saber do assassinato de Chico Mendes. Uma delas é o deputado federal Fernando Gabeira, amigo fraternal do seringueiro e que antevia o fim trágico. "Ele era meu amigo, muito meu amigo. Era uma pessoa boa, tranqüila e que buscava apoio. Ele vivia sempre numa situação muito difícil, sabia que era sempre ameaçado. Na véspera do assassinato dele, nós mandamos, pela 'Folha de S.Paulo', a atriz Lucélia Santos para fazer uma edição especial sobre ele", diz Gabeira.

Outro dos primeiros a receber a notícia da morte, Gomercindo lembra que "Chico estava marcado para morrer havia muito, desde 1970, quando escapou de suas primeiras emboscadas. O pioneir

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

terceira

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

Nada como alguém que vê a situação de fora para ajudar a responder questões como essas. James Cavallaro é brasilianista, professor de direito em Harvard e fundador no Brasil da ONG Justiça Global. Falando a Galileu, ele explica assim o fenômeno Chico Mendes. "A grande genialidade da causa dele estava na interseção que ele encontrou entre os direitos humanos e o movimento a favor do meio ambiente. Ele tornou essa causa célebre, por isso obteve tanto destaque internacional. Seu legado ficou mundialmente famoso porque ele lutava dentro da legalidade, sem nenhuma violência, contra a repressão, tão constante num país que na época era apenas supostamente democrático. A luta dele é muito importante até hoje, como um exemplo. Temos ainda muita violência. E o mundo em geral não avançou muito de lá para cá. Precisamos da união de forças sociais para combater ainda os mesmos problemas. E Chico Mendes era o gênio da união dessas forças."

Visto de dentro para fora, o legado do líder seringueiro põe o Brasil no centro de questões maiores da humanidade. O jornalista Leão Serva, que cobriu todo o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, enfatiza isso. "No tribunal vi muito bem aquela definição que o ex-presidente FHC dava sobre o Brasil, que é a de um país que vive perenemente a contradição entre o moderno e o arcaico. O fórum de Xapuri era o arcaico. O advogado dos réus falava aquela linguagem dos doutores de terra de ninguém. A linguagem usada pela acusação e pela imprensa era a moderna. Aquele julgamento era uma cena de filme do Glauber Rocha. Naquele momento o Brasil não estava se importando muito para as questões ambientais. Tínhamos um país abrindo os olhos para a região Norte, a partir dos gigantescos incêndios ocorridos em Roraima entre 1986 e 1989. Chico teve a sapiência de ver que o Brasil é suscetível a pressões internacionais. Fez viagens aos EUA para apregoar o corte de financiamentos para o Brasil, caso não respeitássemos a ecologia e o meio ambiente. Ganhou prêmio na ONU. Foi o primeiro líder de direitos humanos a discursar no Congresso dos EUA."

Explicações bem mais modestas para a repercussão mundial da causa do líder vêm do seu braço direito, Gomercindo Rodrigues, assessor de Chico Mendes e autor do livro "Caminhando na Floresta". "Ele tinha o dom, a capacidade única de conversar com gente diferente, de diferentes facções. Ele simplesmente conversava com todo mundo. Já no Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985, ele começou a articular algo interessante, um conceito de reservas extrativistas. Era uma idéia inteiramente nova. Isso porque, sejamos claros, os ambientalistas se limitavam a dizer que tínhamos de 'preservar a Amazônia', e o governo tinha aquele discurso segundo o qual tinha que 'desenvolver' a região, para, com isso, diminuir a pobreza e a miséria."

Além das opiniões, a própria biografia de Chico Mendes se incumbe de mostrar o porquê de sua importância. Ele saiu do anonimato com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975. Ali, passou a ocupar o cargo de secretário-geral. No ano seguinte, engajou-se nas lutas dos seringueiros para impedir desmatamentos pela técnica dos "empates". Sempre feitos no verão, os "empates" eram ações coletivas que visavam impedir ("empatar") a ação dos peões encarregados da derrubada da mata. Um grupo de 100 a 200 pessoas - homens, mulheres e crianças - ia pacificamente aos acampamentos e tentava convencer os peões a abandonar as motosserras. Os "empates" de Chico Mendes em seringais de Xapuri chegaram a gerar desapropriações e a criação de reservas extrativistas controladas por seringueiros.

O sucesso na liderança dessas ações despertou nele outros interesses. Lentamente, ele se transforma num político sagaz e de ações precisas. Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Foi o suficiente para levá-lo à vitória na eleição que deu a ele um posto de vereador na Câmara Municipal de Xapuri, pelo MDB, no ano seguinte. Neste momento, ele passa a despertar ainda mais atenção e surgem então as primeiras ameaças de morte.

Já nesse tempo, as questões de Xapuri tinham um apelo universal para o, agora, vereador. Tanto que, em 1979, ele converte a Câmara Municipal em foro de debates sobre violência agrária e questões ambientais. A parceria com o MDB termina no ano seguinte, quando surge o PT, que teve em Chico um de seus fundadores. Isso torna ainda mais radical a oposição - do governo e dos fazendeiros - às suas idéias. Em 1980, ele foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, numa armação de fazendeiros que tentavam acusá-lo da morte daquele que o precedeu como vítima de tocaia: Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia. Passado o susto, em 1981 Chico assumiu a direção do Sindicato de Xapuri. Pronto, estava dada a largada do processo que fez a sua estrela brilhar para o mundo.

Em outubro de 1985, liderou o Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, que deu à luz o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Sua insistente retórica em defesa da "união dos povos da floresta" passa a reverberar nos quatro cantos do globo. Tanto que, em 1987, ele recebe a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, onde puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causada por projetos financiados por bancos internacionais.

Sua página na internet sugere que é exatamente este o ponto que o transforma em alvo político. "Dois meses depois da visita, Chico Mendes levava essas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Trinta dias depois, os financiamentos aos projetos devastadores são suspensos, e Chico é acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o 'progresso' do Estado do Acre. Meses depois, Chico Mendes começa a receber vários prêmios e reconhecimentos, nacionais e internacionais, como uma das pessoas que mais se destacaram naquele ano em defesa da ecologia, como por exemplo o prêmio 'Global 500', oferecido pela própria ONU", diz um texto no site.

E assim chegamos a 1988, ano em que ele implantou uma das primeiras reservas extrativistas no Acre. Conseguiu também aquela que pode ser considerada a sua sentença de morte: a obtenção de uma intrépida desapropriação do seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, em Xapuri. Nesse ponto, as ameaças de morte ganharam tanta intensidade que se fez necessária a proteção policial para tentar impedir o disparo da noite de 22 de dezembro. Como ela não funcionou, logo após o tiro teve início a busca por quem teria cumprido a ameaça.

A morte do líder seringueiro chocou, mas não surpreendeu muita gente. Fora aqueles que estavam na cena do crime, duas pessoas foram as primeiras a saber do assassinato de Chico Mendes. Uma delas é o deputado federal Fernando Gabeira, amigo fraternal do seringueiro e que antevia o fim trágico. "Ele era meu amigo, muito meu amigo. Era uma pessoa boa, tranqüila e que buscava apoio. Ele vivia sempre numa situação muito difícil, sabia que era sempre ameaçado. Na véspera do assassinato dele, nós mandamos, pela 'Folha de S.Paulo', a atriz Lucélia Santos para fazer uma edição especial sobre ele", diz Gabeira.

Outro dos primeiros a receber a notícia da morte, Gomercindo lembra que "Chico estava marcado para morrer havia muito, desde 1970, quando escapou de suas primeiras emboscadas. O pioneir

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

quarta

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

Nada como alguém que vê a situação de fora para ajudar a responder questões como essas. James Cavallaro é brasilianista, professor de direito em Harvard e fundador no Brasil da ONG Justiça Global. Falando a Galileu, ele explica assim o fenômeno Chico Mendes. "A grande genialidade da causa dele estava na interseção que ele encontrou entre os direitos humanos e o movimento a favor do meio ambiente. Ele tornou essa causa célebre, por isso obteve tanto destaque internacional. Seu legado ficou mundialmente famoso porque ele lutava dentro da legalidade, sem nenhuma violência, contra a repressão, tão constante num país que na época era apenas supostamente democrático. A luta dele é muito importante até hoje, como um exemplo. Temos ainda muita violência. E o mundo em geral não avançou muito de lá para cá. Precisamos da união de forças sociais para combater ainda os mesmos problemas. E Chico Mendes era o gênio da união dessas forças."

Visto de dentro para fora, o legado do líder seringueiro põe o Brasil no centro de questões maiores da humanidade. O jornalista Leão Serva, que cobriu todo o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, enfatiza isso. "No tribunal vi muito bem aquela definição que o ex-presidente FHC dava sobre o Brasil, que é a de um país que vive perenemente a contradição entre o moderno e o arcaico. O fórum de Xapuri era o arcaico. O advogado dos réus falava aquela linguagem dos doutores de terra de ninguém. A linguagem usada pela acusação e pela imprensa era a moderna. Aquele julgamento era uma cena de filme do Glauber Rocha. Naquele momento o Brasil não estava se importando muito para as questões ambientais. Tínhamos um país abrindo os olhos para a região Norte, a partir dos gigantescos incêndios ocorridos em Roraima entre 1986 e 1989. Chico teve a sapiência de ver que o Brasil é suscetível a pressões internacionais. Fez viagens aos EUA para apregoar o corte de financiamentos para o Brasil, caso não respeitássemos a ecologia e o meio ambiente. Ganhou prêmio na ONU. Foi o primeiro líder de direitos humanos a discursar no Congresso dos EUA."

Explicações bem mais modestas para a repercussão mundial da causa do líder vêm do seu braço direito, Gomercindo Rodrigues, assessor de Chico Mendes e autor do livro "Caminhando na Floresta". "Ele tinha o dom, a capacidade única de conversar com gente diferente, de diferentes facções. Ele simplesmente conversava com todo mundo. Já no Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985, ele começou a articular algo interessante, um conceito de reservas extrativistas. Era uma idéia inteiramente nova. Isso porque, sejamos claros, os ambientalistas se limitavam a dizer que tínhamos de 'preservar a Amazônia', e o governo tinha aquele discurso segundo o qual tinha que 'desenvolver' a região, para, com isso, diminuir a pobreza e a miséria."

Além das opiniões, a própria biografia de Chico Mendes se incumbe de mostrar o porquê de sua importância. Ele saiu do anonimato com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975. Ali, passou a ocupar o cargo de secretário-geral. No ano seguinte, engajou-se nas lutas dos seringueiros para impedir desmatamentos pela técnica dos "empates". Sempre feitos no verão, os "empates" eram ações coletivas que visavam impedir ("empatar") a ação dos peões encarregados da derrubada da mata. Um grupo de 100 a 200 pessoas - homens, mulheres e crianças - ia pacificamente aos acampamentos e tentava convencer os peões a abandonar as motosserras. Os "empates" de Chico Mendes em seringais de Xapuri chegaram a gerar desapropriações e a criação de reservas extrativistas controladas por seringueiros.

O sucesso na liderança dessas ações despertou nele outros interesses. Lentamente, ele se transforma num político sagaz e de ações precisas. Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Foi o suficiente para levá-lo à vitória na eleição que deu a ele um posto de vereador na Câmara Municipal de Xapuri, pelo MDB, no ano seguinte. Neste momento, ele passa a despertar ainda mais atenção e surgem então as primeiras ameaças de morte.

Já nesse tempo, as questões de Xapuri tinham um apelo universal para o, agora, vereador. Tanto que, em 1979, ele converte a Câmara Municipal em foro de debates sobre violência agrária e questões ambientais. A parceria com o MDB termina no ano seguinte, quando surge o PT, que teve em Chico um de seus fundadores. Isso torna ainda mais radical a oposição - do governo e dos fazendeiros - às suas idéias. Em 1980, ele foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, numa armação de fazendeiros que tentavam acusá-lo da morte daquele que o precedeu como vítima de tocaia: Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia. Passado o susto, em 1981 Chico assumiu a direção do Sindicato de Xapuri. Pronto, estava dada a largada do processo que fez a sua estrela brilhar para o mundo.

Em outubro de 1985, liderou o Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, que deu à luz o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Sua insistente retórica em defesa da "união dos povos da floresta" passa a reverberar nos quatro cantos do globo. Tanto que, em 1987, ele recebe a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, onde puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causada por projetos financiados por bancos internacionais.

Sua página na internet sugere que é exatamente este o ponto que o transforma em alvo político. "Dois meses depois da visita, Chico Mendes levava essas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Trinta dias depois, os financiamentos aos projetos devastadores são suspensos, e Chico é acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o 'progresso' do Estado do Acre. Meses depois, Chico Mendes começa a receber vários prêmios e reconhecimentos, nacionais e internacionais, como uma das pessoas que mais se destacaram naquele ano em defesa da ecologia, como por exemplo o prêmio 'Global 500', oferecido pela própria ONU", diz um texto no site.

E assim chegamos a 1988, ano em que ele implantou uma das primeiras reservas extrativistas no Acre. Conseguiu também aquela que pode ser considerada a sua sentença de morte: a obtenção de uma intrépida desapropriação do seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, em Xapuri. Nesse ponto, as ameaças de morte ganharam tanta intensidade que se fez necessária a proteção policial para tentar impedir o disparo da noite de 22 de dezembro. Como ela não funcionou, logo após o tiro teve início a busca por quem teria cumprido a ameaça.

A morte do líder seringueiro chocou, mas não surpreendeu muita gente. Fora aqueles que estavam na cena do crime, duas pessoas foram as primeiras a saber do assassinato de Chico Mendes. Uma delas é o deputado federal Fernando Gabeira, amigo fraternal do seringueiro e que antevia o fim trágico. "Ele era meu amigo, muito meu amigo. Era uma pessoa boa, tranqüila e que buscava apoio. Ele vivia sempre numa situação muito difícil, sabia que era sempre ameaçado. Na véspera do assassinato dele, nós mandamos, pela 'Folha de S.Paulo', a atriz Lucélia Santos para fazer uma edição especial sobre ele", diz Gabeira.

Outro dos primeiros a receber a notícia da morte, Gomercindo lembra que "Chico estava marcado para morrer havia muito, desde 1970, quando escapou de suas primeiras emboscadas. O pioneir

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

quinta

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

Nada como alguém que vê a situação de fora para ajudar a responder questões como essas. James Cavallaro é brasilianista, professor de direito em Harvard e fundador no Brasil da ONG Justiça Global. Falando a Galileu, ele explica assim o fenômeno Chico Mendes. "A grande genialidade da causa dele estava na interseção que ele encontrou entre os direitos humanos e o movimento a favor do meio ambiente. Ele tornou essa causa célebre, por isso obteve tanto destaque internacional. Seu legado ficou mundialmente famoso porque ele lutava dentro da legalidade, sem nenhuma violência, contra a repressão, tão constante num país que na época era apenas supostamente democrático. A luta dele é muito importante até hoje, como um exemplo. Temos ainda muita violência. E o mundo em geral não avançou muito de lá para cá. Precisamos da união de forças sociais para combater ainda os mesmos problemas. E Chico Mendes era o gênio da união dessas forças."

Visto de dentro para fora, o legado do líder seringueiro põe o Brasil no centro de questões maiores da humanidade. O jornalista Leão Serva, que cobriu todo o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, enfatiza isso. "No tribunal vi muito bem aquela definição que o ex-presidente FHC dava sobre o Brasil, que é a de um país que vive perenemente a contradição entre o moderno e o arcaico. O fórum de Xapuri era o arcaico. O advogado dos réus falava aquela linguagem dos doutores de terra de ninguém. A linguagem usada pela acusação e pela imprensa era a moderna. Aquele julgamento era uma cena de filme do Glauber Rocha. Naquele momento o Brasil não estava se importando muito para as questões ambientais. Tínhamos um país abrindo os olhos para a região Norte, a partir dos gigantescos incêndios ocorridos em Roraima entre 1986 e 1989. Chico teve a sapiência de ver que o Brasil é suscetível a pressões internacionais. Fez viagens aos EUA para apregoar o corte de financiamentos para o Brasil, caso não respeitássemos a ecologia e o meio ambiente. Ganhou prêmio na ONU. Foi o primeiro líder de direitos humanos a discursar no Congresso dos EUA."

Explicações bem mais modestas para a repercussão mundial da causa do líder vêm do seu braço direito, Gomercindo Rodrigues, assessor de Chico Mendes e autor do livro "Caminhando na Floresta". "Ele tinha o dom, a capacidade única de conversar com gente diferente, de diferentes facções. Ele simplesmente conversava com todo mundo. Já no Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985, ele começou a articular algo interessante, um conceito de reservas extrativistas. Era uma idéia inteiramente nova. Isso porque, sejamos claros, os ambientalistas se limitavam a dizer que tínhamos de 'preservar a Amazônia', e o governo tinha aquele discurso segundo o qual tinha que 'desenvolver' a região, para, com isso, diminuir a pobreza e a miséria."

Além das opiniões, a própria biografia de Chico Mendes se incumbe de mostrar o porquê de sua importância. Ele saiu do anonimato com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975. Ali, passou a ocupar o cargo de secretário-geral. No ano seguinte, engajou-se nas lutas dos seringueiros para impedir desmatamentos pela técnica dos "empates". Sempre feitos no verão, os "empates" eram ações coletivas que visavam impedir ("empatar") a ação dos peões encarregados da derrubada da mata. Um grupo de 100 a 200 pessoas - homens, mulheres e crianças - ia pacificamente aos acampamentos e tentava convencer os peões a abandonar as motosserras. Os "empates" de Chico Mendes em seringais de Xapuri chegaram a gerar desapropriações e a criação de reservas extrativistas controladas por seringueiros.

O sucesso na liderança dessas ações despertou nele outros interesses. Lentamente, ele se transforma num político sagaz e de ações precisas. Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Foi o suficiente para levá-lo à vitória na eleição que deu a ele um posto de vereador na Câmara Municipal de Xapuri, pelo MDB, no ano seguinte. Neste momento, ele passa a despertar ainda mais atenção e surgem então as primeiras ameaças de morte.

Já nesse tempo, as questões de Xapuri tinham um apelo universal para o, agora, vereador. Tanto que, em 1979, ele converte a Câmara Municipal em foro de debates sobre violência agrária e questões ambientais. A parceria com o MDB termina no ano seguinte, quando surge o PT, que teve em Chico um de seus fundadores. Isso torna ainda mais radical a oposição - do governo e dos fazendeiros - às suas idéias. Em 1980, ele foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, numa armação de fazendeiros que tentavam acusá-lo da morte daquele que o precedeu como vítima de tocaia: Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia. Passado o susto, em 1981 Chico assumiu a direção do Sindicato de Xapuri. Pronto, estava dada a largada do processo que fez a sua estrela brilhar para o mundo.

Em outubro de 1985, liderou o Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, que deu à luz o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Sua insistente retórica em defesa da "união dos povos da floresta" passa a reverberar nos quatro cantos do globo. Tanto que, em 1987, ele recebe a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, onde puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causada por projetos financiados por bancos internacionais.

Sua página na internet sugere que é exatamente este o ponto que o transforma em alvo político. "Dois meses depois da visita, Chico Mendes levava essas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Trinta dias depois, os financiamentos aos projetos devastadores são suspensos, e Chico é acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o 'progresso' do Estado do Acre. Meses depois, Chico Mendes começa a receber vários prêmios e reconhecimentos, nacionais e internacionais, como uma das pessoas que mais se destacaram naquele ano em defesa da ecologia, como por exemplo o prêmio 'Global 500', oferecido pela própria ONU", diz um texto no site.

E assim chegamos a 1988, ano em que ele implantou uma das primeiras reservas extrativistas no Acre. Conseguiu também aquela que pode ser considerada a sua sentença de morte: a obtenção de uma intrépida desapropriação do seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, em Xapuri. Nesse ponto, as ameaças de morte ganharam tanta intensidade que se fez necessária a proteção policial para tentar impedir o disparo da noite de 22 de dezembro. Como ela não funcionou, logo após o tiro teve início a busca por quem teria cumprido a ameaça.

A morte do líder seringueiro chocou, mas não surpreendeu muita gente. Fora aqueles que estavam na cena do crime, duas pessoas foram as primeiras a saber do assassinato de Chico Mendes. Uma delas é o deputado federal Fernando Gabeira, amigo fraternal do seringueiro e que antevia o fim trágico. "Ele era meu amigo, muito meu amigo. Era uma pessoa boa, tranqüila e que buscava apoio. Ele vivia sempre numa situação muito difícil, sabia que era sempre ameaçado. Na véspera do assassinato dele, nós mandamos, pela 'Folha de S.Paulo', a atriz Lucélia Santos para fazer uma edição especial sobre ele", diz Gabeira.

Outro dos primeiros a receber a notícia da morte, Gomercindo lembra que "Chico estava marcado para morrer havia muito, desde 1970, quando escapou de suas primeiras emboscadas. O pioneir

À mesa, estão o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, sua mulher, Izamar Mendes, os filhos, Sandino e Elenira, e os dois policiais encarregados de sua proteção. É a noite de 22 de dezembro de 1988, e o clima está ameno na casa simples da Dr. Batista de Morais, uma rua mal iluminada de Xapuri, no Acre. Tão ameno que, terminado seu prato, Chico se sente à vontade para atravessar desacompanhado os dois metros que separam a sua casa do banheiro, no quintal do fundo. Foi seu último erro. Do meio da escuridão, surge um homem com uma escopeta calibre 12 e dispara a queima-roupa. É um tiro só, mas com efeito devastador. Com cerca de 40 perfurações no peito, Chico se arrasta até a porta de casa. Balbucia: "Eu quero morrer na minha cama". Não deu tempo. Assim, aos 44 anos, morreu o homem. Assim, há quase duas décadas, nasceu o mito.

Chico Mendes projetou o nome da floresta amazônica na aldeia global como ninguém. O mundo voltou os seus olhos para os seringais e para a ecologia boreal do Brasil por obra e graça dele. Mas como isso se deu, numa época em que nem internet havia? Como o nome e a obra de Chico Mendes ficaram tão famosos no exterior? Como foi possível fazer com que um clamor e uma causa regionais ganhassem apelo universal?

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